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A entrevista  concedida a http://www.senhorf.com.br/  em 2002
Lafayette: "A gente ia fazendo
tudo o que dava na cabeça"

* Fernando Rosa

Por telefone, conversamos com Lafayette, que mora no Rio de Janeiro, e ainda faz bailes em Niterói. Como ele mesmo disse no final do papo, nós viajamos por décadas de histórias. Uma história que - a entrevista deixa isso ainda mais claro -, não faz justiça com ele. Sua importância na construção da sonoridade Jovem Guarda tem praticamente a importância de uma co-autoria geral. Experimentem lembrar de 'Quero Que Vá Tudo Pro Inferno", e digam qual o som que primeiro vem a sua mente. Neste papo, rápido para tudo que ele tem para contar, vieram à tona algumas situações fantásticas. A principal delas: a descoberta de que a introdução do clássico órgão na Jovem Guarda, na música 'Terror dos Namorados', com Erasmo Carlos, nasceu por acaso, nos estúdios da RGE. Mas tem muito mais. Leiam e, principalmente, ouçam os discos do cara.

Senhor F - Quando e como você começou a tocar? Qual a tua formação musical?

Lafayette - Eu comecei a estudar aos quatro anos de idade. Estudei oito anos de piano. O curso inteiro eram onze anos, naquela época. Estudei oito anos, e comecei a gostar mais do lado popular. Então, parei de estudar, já sabia o suficiente pra começar a fazer os primeiros conjuntinhos. E foi ai que começou tudo. Estava com doze anos. No colégio que eu estudava, tinha várias pessoas que também se ligavam em música. Eu fiz o ginasial e um pouco do científico em dois colégios, no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói e no Instituto no Instituto Lafayette, no Rio de Janeiro, que tinha meu nome, mas não tinha nada a ver comigo.

Senhor F - Foi aí que nasceu o Blue Jeans Rockers, com você, Luizinho e Euclides?

Lafayette - Foi lá (no colégio Lafayette) que nós começamos a formar o Blue Jeans Rockers. Nesse colégio, conheci vários cantores, artistas, que hoje fazem sucesso, como o Luiz Ayrão. Em frente ao Colégio tinha um cinema, que se chamava Cine Madri. Então lá, era praticamente o local de reunião de todo o pessoal que começou a fazer Jovem Guarda, a Wanderléa, Tim Maia, Jorge Ben. Todo mundo se reunia nesse cinema, era o ponto, o lugar em que o pessoal batia papo, trocava idéia e tudo. Ali começou praticamente a idéia do movimento da Jovem Guarda.

Senhor F - Você ouvia o que na época? Muito rock and roll?

Lafayette - Ouvia muito rock. Elvis, naquela época era o início do Elvis Presley, Neil Sedaka, Little Richard e tudo mais. Foi aí que nós começamos a fazer o Blue Jeans Rockers, baseado nisso. Nós tinhamos três cantores no conjunto. O Luiz Henrique, que era mais para o o lado de Elvis Presley; o Luizinho, que era mais variado, ele gostava muito de country, Gene Vincent; e tinha o Cyro Aguiar, que fazia mais o estilo de Pat Boone, ele cantava muito bem as músicas dele, e aqueles roquezinhos country, era muito bom nessa parte. Então, eram esses três os vocalistas do conjunto.

Senhor F
- Nessa época, tu já tinha relação o pessoal que, depois, comandou a Jovem Guarda, especialmente Roberto, Erasmo e Wanderléa?

Lafayette - Isso foi um negócio à parte, um pouco antes da Jovem Guarda. Naquela época do Blue Jeans, a gente ensaiava muito. Era muito assim de um ir na casa do outro, era uma turma, como se fosse uma turma de rua, mesmo. Então, a gente participava de programas de rock ao vivo, eu tenho até troféus que a gente ganhou, como melhor conjunto de rock ao vivo. E chegamos a ter o prazer de acompanhar o Neil Sedaka, quando ele esteve no Brasil. Mas, nosso grande sonho era acompanhar o Elvis, se ele viesse ao país. Também acompanhamos, bem mais tarde, o Jimmy Cliff.

Senhor F - O grupo chegou a gravar? A história registra um 78rpm com 'Here Is The Blue Jeans Rockers', de vocês, e 'Blue Suede Shoes', de Carl Perkins.

Lafayette - Existe um acetato, pelo selo Tiger, e eu acho que existe uma única cópia, que eu sempre quis ter, mas nunca consegui. Não sei onde tinha ido parar essa cópia. Deve ter ficado com o Luizinho ou com o Luiz Henrique. E deve ter dado várias voltas por aí.

Senhor F - Esse disco é importante, porque é o primeiro registro de rock instrumental no Brasil …

Lafayette - Acho que o Blue Jeans Rockers foi também o primeiro conjunto de rock do Brasil.

Senhor F - E nesse período, entre o Blue Jeans e o começo da Jovem Guarda, o que rolou?

Lafayette -
Eu não sei precisar o tempo que o Blue Jeans durou. O Blue Jeans durou toda aquela época do rock. Ai foi havendo uma mudança, e eu não sei porque, eu não lembro bem porque, o Blue Jeans se dissolveu. Então, formei o meu conjunto, o Lafayette, Seu Piano e Ritmo, e comecei a fazer bailes. Ai fiquei muito amigo de Luiz Airão. Eu ensaiava até na casa dele. Nós fizemos um conjunto bem eclético, que tocava todos os ritmos.

Senhor F - O Luiz Ayrão era o cantor do conjunto?

Lafayette - Não, o Luiz Ayrão era só meu colega de escola, a gente batia muito, ele me mostrava as músicas que ele fazia. Veja você, só depois de muitos anos ele foi gravar a primeira música com o Roberto, 'Nossa Canção', que fez um sucesso enorme.

Senhor F - E o contato com o pessoal da Jovem Guarda, como foi?

Lafayette - Desde a época do colégio, eu morava na Tijuca, e a Tijuca era o bairro em que vivia todo o pessoal.

Senhor F - A Turma do Matoso …

Lafayette - Justamente, na esquina da Matoso é que ficava o cinema Madri, em que o pessoal se reunia.

Senhor F - Mas, o primeiro contato, digamos, de trabalho …

Lafayette - O Erasmo era meu vizinho, a rua em que ele morava era logo depois da minha. A gente era muito amigo. Um dia, eu estava em casa, ele foi lá e me disse: olha eu vou gravar um disco, e queria que você participasse, tocando piano. Eu disse: tudo bem, eu vou lá. Marcamos o dia, e fui lá na gravadora dele que, naquela época, era a RGE. Então, eu fui pra gravar com piano e, de repente, entrando no estúdio da RGE, nós vimos assim, um negócio, tipo um instrumento, jogado num canto do estúdio, e fomos tirar a capa pra ver. Era um órgão. Eu nunca tinha tocado órgão, mas achava um instrumento maravilhoso. Aí eu liguei o órgão, e comecei a tocar umas músicas de Natal, músicas de igreja, aquelas coisas típicas de órgão mesmo. O Erasmo que, naquela época, já tinha umas idéias avançadas, veio e disse: puxa bicho, que tal a gente fazer o seguinte, fazer um negócio diferente, ao invés de botar um piano, botar um órgão. Ai o pessoal (da gravadora) … mas órgão em rock, em música jovem? Ele (Erasmo) disse, não, vamos experimentar, e foi ai que a gente gravou 'Terror dos Namorados', e 'A Pescaria' também. Eu disse, bom, então vamos fazer o seguinte, a gente vai tocando, e eu vou fazendo o que eu sentir. Nós começamos, fizemos o negócio, e quando terminou, que a gente ouviu a gravação, achamos que tinha ficado ótimo, sabe, o negócio ficou muito bom. Ai o Erasmo disse: puxa vida, é isso ai que eu quero. Então, o disco foi pra mixagem, e quando já estava pronto, antes de sair, o Erasmo chamou o Roberto - naquela época eles já estavam juntos - para mostrar ao Roberto. E disse: olha só que novidade eu vou lançar. O Roberto ouviu, ficou maluco, e disse: ahh não, no meu próximo disco eu quero um órgão também, sabe, eu quero órgão. Então vai lá, disse o Erasmo, fala com o Lafa pra ele gravar. Em seguida, o Roberto me telefonou, foi quando eu fui pra CBS, e comecei a gravar com ele.

Senhor F - E qual foi a primeira gravação com o Roberto, a que mais causou impacto?

Lafayette - Olha, uma das primeiras, não sei se foi a primeira, mas uma das primeiras músicas que fez o pessoal prestar atenção em mim foi 'Quero Que Vá Tudo Pro Inferno'. Aquele som de órgão que eu botei, acho que fui muito feliz em achar aquele som certo do órgão. Agora, a música que me deu muita sorte, que realmente chamou a atenção da gravadora, foi 'Não Quero Ver Você Triste'. O Roberto, quando foi gravar, não tinha ainda terminado de fazer a música toda, só tinha feito um pedaço. Ele disse: bicho, essa música é muito importante, porque eu só declamo na música, o solo todo é de órgão, a música toda é o orgão que vai tocar, eu só vou declamar e assoviar. Ai ele disse: mas eu só fiz a metade, e queria tanto gravar logo essa música. Eu disse: olha você faz o seguinte, vamos ver a metade que você fez, a gente vai gravando - aquele mesma idéia do Erasmo - e o que vier na minha cabeça, eu vou tocar, e se você gostar você, fica. Fizemos assim. O Roberto começou a assoviar, a mostrar a melodia pra mim, a gente ensaiou rapidamente no estúdio. Ai começou, e bom, eu disse, eu vou fazer o que vier na minha cabeça. Depois a gente vê o que vai sair. A primeira parte, ele já tinha feito, eu fiz o que ele tinha feito, e a segunda eu fui inventando, e saiu aquilo. O Roberto disse, tá ótimo. Até tem gente que diz que eu devia, na época, ter exigido uma parceria na música, mas a gente não tinha essa idéia comercial.

Senhor F - Com foi tua relação com o Roberto Carlos, que tinha fama de perfeccionista?

Lafayette - Foi bom, porque eu sempre também gostei de fazer tudo certinho, então a gente combinava muito. Agora, justamente eu parei de tocar com ele porque eu já não tinha mais tempo. O Roberto realmente tomava muito tempo da gente. As vezes a gente ficava um dia inteiro, uma noite inteira, para gravar uma música só. A gente gravava várias vezes. Por exemplo, a gente começava a gravar as sete horas da manhã, gravava até as sete horas da noite, ai dava uma parada para jantar, esfriar a cabeça, voltava pro estúdio, nove horas, e ia até as três da manhã. Para no final, ele dizer, sabe, aquela primeira que nós gravamos - aquela lá das sete, oito horas da manhã - ficou mais legal. Então, com o decorrer do tempo, com os meus discos fazendo muito sucesso, comecei a tocar em muitos lugares. O Roberto também formou o primeiro conjunto dele, o RC3. Ele me chamou pra tocar, mas eu disse que não podia ir porque já estava fazendo meu conjunto, com meu nome. Eu pensei, ou faço a minha carreira ou, então, fico preso pra sempre com o Roberto. Então, tive parar com ele, e fazer a minha carreira.

Senhor F - A sonoridade do teu órgão é uma espécie de marca registrada da Jovem Guarda. Como você chegou nela?

Lafaytte - A partir dessas primeiras gravações com órgão, eu comecei a abandonar um pouco o piano. Embora eu gravasse de tudo. Todos os teclados das músicas do Roberto, eu que gravei. Com o Roberto, eu gravei com sintetizador, já naquela época, quando apareceram os primeiros sintetizadores, era um moog. Eu gravei com celeste, gravei até com cravo, que era um instrumento difícil de ter por aqui, porque desafina atoa. Foi uma experiência nova a gente botar aquele intrumento. A gente ia fazendo tudo que vinha na cabeça.

Senhor F - E que tipo de instrumentos e equipamentos você usava?

Lafayette - Era um Hammond, modelo B3, com uma caixa Leslie, mas no início não tinha caixa, só depois é que botamos. A CBS também tinha um órgão Farfisa, mas eu não gostava muito. Eu achava o Farfisa muito estridente, mas alguma coisa a gente fez com ele, para dar um efeito diferente. Agora, eu devo muito aquele som do órgão aos técnicos da CBS, especialmente o Jairo Pires, que depois virou produtor, e Eugênio de Carvalho, que mais tarde trabalhou na Globo. Eles melhoravam muito o som do órgão, botavam um tipo de eco que tinha lá na CBS, um eco muito bom. Quando eu dava aquelas puxadas, dava um efeito … Eles davam ao órgão, além do som bonito que já tem, uma equalização, um eco assim diferente. Aquilo tudo ajudou a fazer aquele som, a sair aquele timbre legal.

Senhor F - Com que mais você gravou, além de Erasmo e Roberto?

Lafaytte - Todos eles, Renato e Seus Blue Caps, Os Vips, mas mais aqui no Rio. Tinha dias, naquele época, que eu tocava o dia inteiro no rádio. Olha eu gravei muita coisa nas outras gravadoras, na Philips, na Odeon, mas tinha uns, que eu não sabia qual artista eu estava gravando. O produtor me dava as partituras, e eu fazia, mas nem sabia o nome do artista. O artista muitaz vezes não estava nem presente no estúdio.

Senhor F - Como surgiu a idéia dos discos 'Lafayette Apresenta os Sucessos?

Lafayette - Foi nesse dia em que eu gravei 'Não Quero Ver Você Triste', e depois nós gravamos a 'História de Um Homem Mau', onde eu fazia só tipo de um balanço no órgão. O diretor da gravadora, na época, o 'seo' Evandro (NR - Evandro Ribeiro, diretor artístico e presidente da CBS nos anos 60 & 70), ficou muito entusiasmado comigo, e disse, vou oferecer um contrato a esse garoto pra gente fazer um disco solo. Então, ele marcou no dia seguinte pra eu ir lá assinar um contrato, e nós começamos a gravar. Mas o primeiro, não foi nem com Jovem Guarda. Eu gostava muito de tocar samba naquela época. Eu tinha muita influência do conjunto do Ed Lincoln, que eu gostava muito. A minha vontade era gravar samba. Ai o 'seo' Evandro disse: olha, samba não é muito bom não, já tem muita gente vendendo samba. Então, ele, pra fazer a minha vontade, deixou gravar. Ai gravei um disco, com metade de músicas orquestradas, e outra metade cantada pela minha esposa. O nome do disco era 'Lafayette apresenta Dina Lúcia'.

Nem eu, nem ela tinhamos experiência de gravar, o som do disco era legal, mas não vendeu. Então, 'seo' Evandro disse: tá vendo, você fez o primeiro do seu jeito, agora a vamos fazer do meu. E me entregou o repertório, que tinha músicas dos Beatles, como 'Yesterday', 'Michelle'. Eu gravei, e estourou. Foi o primeiro da série 'Lafayette Apresenta os Sucessos'.

Senhor F - Quantos discos teve essa série? Eram lançados só no Brasil, ou foram lançados foram também?

Lafaytte - Foram 32 lps aqui no Brasil, e lá fora outros trinta e poucos, ou quarenta. Nós lançamos em tudo que é lugar. Tem compacto lançado nos Estados Unidos, em Israel; tenho capas desses discos aqui em casa. Tem disco lançado no mundo todo. A CBS era uma das maiores fábricas de discos. Na Argentina, foram lançados quase todos os discos. E fazia shows lá, no Uruguai, Paraguai. O pessoal achava que eu era francês. Na Argentina, diziam que isso ajudava muito.

Senhor F - Tens idéia de quantos discos você vendeu?

Lafayette - Não sei, mesmo porque o artista aqui no Brasil é muito roubado. Se você pensa que gravou 50 mil, você gravou 100 mil. Vai ser sempre assim. Mas nós temos um advogado aqui no Brasil, que se formou nessa parte de direitos autorais, e ele está processando as gravadoras, para que os artistas recebam realmente o que venderam. E ele já está conseguindo com que algumas pessoas já estejam recebendo, como o Júlio Cesar, dos The Pop's.

Senhor F - Teus discos foram relançados em cd, além daquela só com músicas do Roberto?

Lafayette - A Sony já lançou 5 cds. Dois foram sairam no Norte do Brasil, pela etiqueta Polydisc. E os outros foram pela Sony mesmo.

Senhor F - Como foi a transição para os anos 70, e como foi trabalhar com o produtor Mauro Motta?

Lafaytte - Com o Mauro foi ótimo. A gente sempre se entendeu muito bem, porque o Mauro também era tecladista. Ele foi um dos primeiros tecladistas do Renato e Seus Blue Caps. Até o Mauro entrar, eu é que gravava com o Renato, órgão, piano. O Mauro foi meu produtor, a gente se dava muito. Ele ia muito lá em casa. O pessoal da CBS ia muito lá em casa, inclusive o Raul Seixas, que era produtor na época. Ele usava o nome de Raulzito. Conheci ele naquela época, a gente batia muito papo, mas não trabalhamos diretamente, só com os artistas que ele produzia.

Senhor F - Além de gravar, o que mais fizeste nos anos setenta?

Lafayette - Nessa época eu já estava fazendo bailes, já com o Lafayette e seu Conjunto. Depois que eu gravei o primeiro disco e estourou, eu tive que mudar o nome do conjunto para Lafayette e se Conjunto. Quando veio os anos setenta, com a discoteque, eu já estava fazendo baile. E baile é bom, é uma escola boa para músicos, para cantores, porque a gente é obrigado a acompanhar tudo que vem, todos os ritmos, todas as tendências, estar por dentro do negócio. O conjunto era muito grande, na época tinha doze integrantes, três metais, três cantores. Paulo Massadas foi cantor do meu conjunto.

Senhor F - Você acha que a Jovem Guarda, assim como o teu papel na história do gênero, tem o devido reconhecimento?

Lafaytte - Por parte de músicos, do pessoal do meio musical, existe um reconhecimento. Esse som que a gente fazia, que a gente tirava, o pessoal gosta muito. Agora, o que modificou, é o pessoal da mídia, da televisão, do rádio. Eles não divulgam, e impedem a divulgação. Eles não tocando, as gravadoras também param de lançar trabalhos com aquele som. Até o Roberto podia gravar coisas assim. Veja os Estados Unidos, onde todo mundo tem o seu espaço, o seu pedaço no mercado. Virou um negócio de moda, aqui no Rio, depois São Paulo, se a moda é botar um instrumento tocando e um cachorro latindo, eles vão fazer isso, e o pessaol vai comprar isso, esse disco, porque é o que está na moda. Então, isso pode durar uns dez dias, até vir um outro cara, e inventar outra coisa, e é assim. É tudo negócio de modismo. Acho que isso é um pouco de falta de cultura. Já no resto do Brasil, a gente vai no Rio Grande do Sul, no Paraná, em Santa Catarina, em Minas Gerais, a gente vê um pouco de cada música. Acho, então, que eles estão mais instruídos musicalmente do que Rio e São Paulo, que vão muito pela moda. Eu ouvi outro dia, cds dos conjuntos que estiveram no Rock In Rio, e tinha lá aquelas coisas bem simples, acho que no do Oasis. Ai pessoal novo, que gosta desses conjuntos, e começa a gostar desses sons, não sabe que a gente já fazia isso naquela época. É claro que hoje em dia tem mais recursos de eletrônica, de estúdio. Mas, se pagasse aquelas músicas da época da Jovem Guarda, e gravasse do mesmo jeito que gravou, mas com o som atual, ia ficar espetacular, com um som mais pesado, mais legal, porque tem mais recursos. Embora, o Hammond seja sempre o Hammond. Mas, tem mais recursos nas mesas e outras coisas. O pessoal tentou, aqui no Rio, e em São Paulo, relançar a Jovem Guarda, mas acho que fizeram uma coisa errada. Eles pra relançar a Jovem Guarda, tinham que gravar músicas naquele estilo, mas com som atual, com arranjos simples, mas com som atual, e não pegar as gravações antigas e praticamente remasterizar. Ai não surtiu efeito, mesmo porque o Roberto não participou do negócio. Tinha que participar, porque ele foi o cabeça, o cara que encabeçou a Jovem Guarda. O Erasmo entrou, a Wanderléia entrou, mas ele não entrou. Mas, pelo que sei por amigos, como o Renato (do Renato e Seus Blue Caps), que viaja pelo Brasil todo, a Jovem Guarda é muito bem aceita. Então, acho que nós deveriamos estar gravando músicas novas, com aqueles arranjos, como esse pessoal de fora está fazendo.

Senhor F - Tens gravado com algum artistas do rock mais atual, e que acharias disso?

Lafaeytte - O últmo disco que gravei, com o pessoal mais novo, foi um disco com o Zé Ramalho, chamado 'Pra Não Dizer Que Não Falei de Rock'. Aliás, achei que ficou muito bom. Foi uma surpresa pra mim. Não esperava ver o Zé Ramalho cantando rock, assim rock mesmo, muito bem. Eu gravei piano, e gostei muito. Foi o disco mais atual que participei, embora isso faça muito tempo. Mais recentemente, gravei com um cantor evangélico, J. Neto. Ele tem a voz igual a do Roberto, e queria gravar um disco com o som dos anos sessenta. E gravamos com os mesmos instrumentos, inclusive o órgão Hammond, só que não foi o modelo B3, que eles não acharam.

Senhor F - O que você ouve atualmente, e quais foram ou são as tuas influências?

Lafayette - E eu ainda continuo fazendo bailes, onde se toca coisas variadas, então tenho ouvido de tudo. A música sendo boa, eu gosto dela; é o que importa, seja sertanja, rock, forró. As minhas influências, no Brasil, foram dois caras, em quem eu era vidrado: Ed Lincoln e Eumir Deodato. Tem também o Cesar Camargo Mariano, mas já é da nossa época. E internacionalente, eu gostava muito do Rick Wakeman, ouvia muito, tenho vários dfiscos dele aqui. Tinha ainda um tecladista, que cantava também, Earl Grant. Entre os guitarristas, gosto muito de George Benson.

Senhor F - Algum recado final?

Lafayette - Acho ainda, que a música instrumental no Brasil é muito mal divulgada. Você pega uma pessoa no meio da rua, e pergunta por algum instrumentista que conhece, e ela pode até dizer Ed Lincoln, Lafayette, Renato, mas vai falar meia dúzia de nomes e mais ninguém. Pra gente do meio mesmo, tem quem? O Cesar Camargo Mariano, que o pessoal conhece mais ou menos. Fica díficil. Porque as rádios não tocam música instrumental. Eu acho que deveria haver um movimento, sei lá. A rádio acha que a música instrumental não dá audiência. Por isso, que disco instrumental no Brasil é dificil de fazer.

 

Senhor F - A Revista do Rock
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